Sandra Antunes Ramos

O branco circunda as formas em todos os desenhos de Sandra Antunes Ramos. Essa é uma de suas três principais regras. Há um branco do papel, uma pele do papel, que fica intocada. E que recebe as formas e as cores preenchidas a lápis, sem que seu formato e suas dimensões sejam mudados. Do início ao final, o papel permanece autônomo, lugar de tudo, embora receba o restante com tanta sutileza e gentileza que se pode falar aqui de uma verdadeira hospitalidade.

Não é tanto a cor branca, mas o papel, o ponto a salientar. Isso fica claro pelas bordas dos desenhos. Se nessas o branco não vier a circundar as formas, é porque bastam os limites do papel. A regra de circundar de branco cada forma só vale para o interior. O fora do desenho não é circundado, mas assemelhado a um recorte. Os limites das formas são os brancos. O limite do papel e do desenho é o mundo.

A segunda e a terceira regras dizem respeito às cores: a) cada forma tem uma cor uniforme, e b) num desenho, uma forma que se repita nunca terá a mesma cor, por mais semelhantes que tais cores sejam. Por exemplo, se formas iguais surgem, elas necessariamente ocupam posições diversas e suas cores nunca são iguais. Ao lugar diferente corresponde uma cor diferente. A cor marca o lugar. E nenhum lugar é igual ao outro, pois assim se retiraria do papel, de sua área, das coordenadas concretas que possui. Entre esquerda e direita, acima e abaixo, cada ponto do papel é único.

Há uma concretude forte aqui, motivo pelo qual os desenhos são tão singulares. Tudo é único, o que vale também para o conjunto das formas que estruturou cada desenho. Se também a fatura a lápis for acrescentada, a concretude e a singularidade dos desenhos atingem um máximo.