No papel | Célia Euvaldo | Elizabeth Jobim | Ester Grinspum | Renata Tassinari | 19 mar - 04 mai

No papel | Célia Euvaldo | Elizabeth Jobim | Ester Grinspum | Renata Tassinari | 19 mar - 04 mai

Quatro artistas resgatam o papel como protagonista de diversas técnicas em exposição na Mul.ti.plo, a partir de 19 de março

O trabalho de Célia Euvaldo, Elizabeth Jobim, Ester Grinspum e Renata Tassinari assinala, cada uma a seu modo, a imensa relevância do papel para a arte contemporânea na exposição “No papel”, que a Mul.ti.plo Espaço Arte, no Leblon, abre no dia 19 de março. Não há uma temática que permeie a mostra: cerca de 20 obras ocupam as duas salas da galeria, tendo como único critério a diversidade e extensão do uso do papel. Para muito além do suporte, há em comum entre os trabalhos das quatro artistas apenas o fato de que, como num poema, existe uma densidade e uma economia de elementos.

“São obras que fazem da incompletude, da falta e do vazio, uma nova força. Que propõem uma indagação e fazem pensar”, afirma Maneco Müller, sócio da Mul.ti.plo.

A busca pela subjetividade e a relação entre espaços e vazios são questões importantes na produção artística de Ester Grinspum, que apresenta pinturas a óleo sobre papel recentes e inéditos, de 2017:

“A Ester dá o tom dessa incompletude. São obras de uma única pincelada. É como se só o primeiro passo fosse desvelado”, destaca Maneco.

Ester define as obras como exercícios de desenho, pequenas formas construídas com pincéis usados para a caligrafia japonesa.

“A forma circular está sempre muito presente no meu trabalho e esses desenhos também são círculos, ou quase círculos, que me remetem à perspectiva circular do tempo, cíclica”, diz ela.

Partindo da observação de pequenas pedras, os desenhos de Elizabeth Jobim apresentados na exposição foram produzidos em acrílica e nanquim sobre papel, entre 2000 e 2004.

“Eles trazem minha percepção das formas, dos ângulos e do espaço e são feitos de várias partes que são colocadas justapostas. Eu desenhava na parede com uma técnica aguada, por isso têm escorridos”.

Para Maneco, a potência desses trabalhos da artista consiste justamente em, neste ambiente aguado que constrói e faz fluir, propor uma espécie de negociação, por vezes tensa, com o acaso.

“Elizabeth tem um gesto muito vivo, muito presente, mas nestes trabalhos, ela incorpora o imprevisto. A tinta escorre pelo papel e se transforma em arte. As obras têm essa sabedoria”, comenta Maneco.

Com desenhos mostrados pela primeira vez, feitos com nanquim sobre papel chinês entre 1988 e 2011, Célia Euvaldo trabalha com superfícies mais opacas, monocromáticas, nas quais se vê a presença do corpo e da textura, com pinceladas largas ora na horizontal, ora na vertical, criando um padrão desconcertante.

“São pinceladas de cerca de 30 cm, às vezes bem cheias, outras com pouca tinta. São faixas em que sempre tive a ideia de passar a energia do gesto. O traço oscila, derrapa, a tinta respinga, e vou acatando o imprevisto, inclusive a reação do papel, que às vezes enruga, contrai, e assim não é só um fundo, mas um elemento com um papel ativo”, diz Célia.

“São obras de pinceladas únicas e, portanto, de um risco imenso, especialmente porque são trabalhos de grandes entregas”, acrescenta Maneco.

Nos trabalhos de Renata Tassinari se veem planos geometrizados por cores, resultado de uma pesquisa que a artista paulistana faz desde 2003. Inéditos também, os desenhos foram produzidos em 2018 com óleo e grafite sobre papel. Foi a partir das pinturas que já fazia sobre placas acrílicas e sobre madeira que Renata começou a pensar o trabalho com o papel.

“A paleta cromática dos desenhos tem muito a ver com a das minhas pinturas, inclusive a fresta branca, que é o respiro da obra, o risco por onde corre o ar”, conta Renata.

A cor é, sem dúvida, o eixo de gravidade dos trabalhos, e cada cor se afirma por si, como persona única e autônoma, comenta Maneco:

“Existe uma insubordinação das cores, Renata demonstra o seu absoluto domínio ao colocar lado a lado cores improváveis, que muitas vezes têm uma convivência nada pacífica, mas como tudo é estruturado e bonito...”

A exposição fica em cartaz até 4 de maio, de segunda a sexta, das 10h às 18h30 e sábados, de 10h às 14h, com entrada franca.